1. Introdução: interpretar e encontrar um limite
Desde A interpretação dos sonhos, a psicanálise estabelece uma ruptura decisiva com os sistemas que atribuíam significações universais e previamente codificadas aos elementos oníricos.
O sonho freudiano não se oferece a um dicionário. Seu trabalho exige a singularidade das associações do sonhador, e a interpretação se produz no percurso entre o relato, seus deslocamentos, condensações e redes associativas.
Mas a mesma obra que inaugura uma extraordinária abertura à interpretabilidade contém também uma advertência sobre seu limite. Freud observa que mesmo no sonho mais extensamente interpretado permanece um ponto obscuro, um emaranhado que não se deixa desfazer: o umbigo do sonho, ponto em que ele se liga ao desconhecido. Os pensamentos oníricos ramificam-se em múltiplas direções numa rede que não possui término naturalmente determinável (FREUD, 1900/2019). A interpretação, portanto, nasce acompanhada pela impossibilidade de sua totalização.
Esta questão adquiriu particular importância no percurso apresentado neste artigo. Não porque tivesse sido previamente escolhida como hipótese, mas porque surgiu como problema dentro do próprio trabalho com os sonhos.
O Laboratório dos Sonhos começou com a perspectiva de examinar longitudinalmente recorrências, transformações, desaparecimentos de imagens, afetos, personagens e estruturas narrativas ao longo de muitos anos de registros. Entretanto, à medida que o corpus era progressivamente organizado, a quantidade de relações possíveis aumentava. A tentativa de aumentar a precisão começou a produzir seu contrário: excesso de categorias, multiplicação de conexões e perda progressiva da singularidade das formações oníricas.
O impasse metodológico tornou-se então objeto de investigação.
Em que momento a ampliação das associações deixa de ampliar a elaboração?
Este artigo acompanha a genealogia dessa pergunta.
2. Nota metodológica: o estatuto do Laboratório dos Sonhos
O Laboratório dos Sonhos não constitui um estudo clínico de paciente nem pretende reproduzir as condições de um tratamento psicanalítico. Tampouco deve ser definido simplesmente como exercício de autoanálise.
Trata-se de um dispositivo longitudinal, idiográfico e documental de investigação teórico-clínica, formado por registros de sonhos do próprio autor, produzidos de maneira descontínua a partir de 2012 e retomados posteriormente em diferentes momentos de elaboração.
Na data desta redação, o acervo reúne aproximadamente 246 unidades documentais operacionais, incluindo registros contemporâneos aos sonhos, transcrições posteriores e pelo menos um relato recuperado de fonte literária. O número designa unidades disponíveis para investigação, e não pretende estabelecer quantos sonhos efetivamente ocorreram ou quantas experiências oníricas distintas poderiam ser delimitadas no conjunto.
Uma característica metodológica precisa ser destacada: sonhador, autor dos registros e pesquisador são a mesma pessoa, mas não ocupam essas posições no mesmo tempo. Entre o acontecimento onírico, sua escrita, sua releitura e a elaboração conceitual podem transcorrer dias, meses ou anos. Essa distância temporal impede que relato, associação e interpretação sejam tratados como uma única camada documental.
Por essa razão, o trabalho buscou distinguir sempre que possível: relato manifesto do sonho; contexto de registro; associações produzidas pelo autor; elaborações retrospectivas; e conexões formuladas posteriormente durante a investigação.
O emprego dos próprios sonhos como material de investigação não é estranho à história da psicanálise. Os sonhos de Freud tiveram papel central na elaboração de sua teoria, e sua autoanálise tornou-se posteriormente objeto específico de investigação, entre outros, por Didier Anzieu (ANZIEU, 1986). Isso, porém, não elimina o problema do lugar da transferência nem transforma automaticamente uma pesquisa autorreferida em situação analítica.
No Laboratório, não se pressupõe uma transferência homogênea que abrangeria todo o corpus. Alguns sonhos atravessaram experiências analíticas; outros foram apenas registrados; outros receberam associações muito depois. Nas etapas recentes, sistemas de inteligência artificial também foram utilizados para localizar recorrências e produzir conexões contextuais. Tais conexões não foram consideradas equivalentes à associação livre do sonhador: sua pertinência dependia do que posteriormente produziam — ou não produziam — no percurso subjetivo.
Também não há novidade, em si mesma, no trabalho com longas séries de sonhos. Pesquisas contemporâneas analisam milhares de sonhos de um único indivíduo ao longo de décadas, inclusive em situações nas quais o próprio pesquisador é também o sonhador (SCHREDL, 2015; 2024). A especificidade deste trabalho encontra-se, portanto, em outro lugar: não na extensão longitudinal do corpus, mas no acompanhamento da emergência de operadores produzidos pelos impasses do próprio dispositivo interpretativo.
Os sonhos utilizados a seguir não foram escolhidos como amostra representativa do acervo. Foram selecionados porque introduziram césuras no processo de investigação: obrigaram a modificar uma hipótese, interromper um procedimento ou formular um novo problema.
3. Quando o Laboratório encontra seu próprio limite
A primeira proposta de tratamento do acervo parecia metodologicamente promissora. Seria possível acompanhar significantes recorrentes, redes associativas, lugares, objetos, afetos, modificações de figurabilidade e grandes césuras biográficas.
A dificuldade apareceu justamente porque isso era possível.
Cada nova categoria permitia outras subdivisões. Cada significante encontrava novas ocorrências. Cada conexão podia ser relacionada a outras anteriores. A extensão temporal do acervo favorecia a multiplicação quase ilimitada dos cruzamentos.
Progressivamente surgiu a sensação de que o material começava a ser pasteurizado pela própria organização.
Essa experiência produziu a primeira mudança metodológica importante: suspender a cartografia sistemática e retornar aos sonhos que haviam efetivamente produzido impasses e deslocamentos.
O fracasso parcial do método deixou então de ser tratado como problema a ser corrigido e passou a funcionar como dado da investigação.
Mais tarde se tornaria possível formular a hipótese de que o Laboratório havia encontrado, em sua própria metodologia, algo semelhante àquilo que alguns sonhos começariam a figurar: a possibilidade de que a multiplicação das relações ultrapassasse sua capacidade elaborativa.
4. A chave que salva, mas não explica
Um dos sonhos que adquiriram maior importância nesse percurso não se encontrava inicialmente no corpus recuperado. Foi posteriormente localizado em O Voo da Coruja, livro publicado pelo autor em edição de 2016. A data original do sonho permanece desconhecida; sua fonte é, portanto, uma versão literariamente elaborada, reconhecida posteriormente pelo autor como fiel à estrutura da experiência onírica lembrada.
No sonho, uma força descomunal, semelhante a um gigantesco movimento espiralado, destrói progressivamente a cidade. Prédios, veículos, árvores e pessoas desaparecem. A catástrofe parece estender-se ao planeta. O sonhador pensa tratar-se do juízo final.
Curiosamente, não predomina o medo. Há sobretudo a necessidade de continuar escapando.
Surge então uma pequena nave, cujos tripulantes afirmam que precisam resgatá-lo porque ele possui “o sinal da salvação”. Pedem que mostre a mão. Nela se encontra um objeto marcado pela Cruz Ansata — Ankh, tradicionalmente associada à vida.
Ele é recolhido.
Mas o sonho não termina simplesmente no resgate.
Os tripulantes o colocam em sono criogênico.
Talvez não exista porta alguma a ser aberta. A vida foi a chave diante do caos total.
Até então, parte do trabalho do Laboratório vinha sendo atravessada pela imagem da chave como instrumento de acesso: encontrar a palavra, a combinação ou o significante que pudesse abrir alguma coisa ainda encoberta.
O sonho da Ankh introduz outra possibilidade.
A chave não abre uma porta. Ela não explica a catástrofe. Não informa de onde provém a força destrutiva, por que o sonhador é escolhido nem para onde será levado.
Ela opera sem explicar.
Daí surgiu uma distinção que se tornaria importante no restante do trabalho: chave explicativa é aquela da qual se espera a revelação do enigma; chave operatória é aquilo que produz uma possibilidade de sustentação ou passagem sem necessariamente transformar o enigma em saber.
No sonho, porém, até mesmo essa passagem exige uma interrupção. A preservação ocorre através de uma suspensão. Esse detalhe só ganharia toda a sua importância muito posteriormente.
5. A chave na boca
Uma chave literal já aparecera num sonho de julho de 2012.
Em meio a uma narrativa complexa marcada por violência, culpa, carma, aproximação amorosa e posteriormente imagens sacrificiais, o sonhador encontra uma mulher que deseja carinho. Eles se beijam. A mulher tem uma chave na boca. O sonhador a retira, mas ela diz que prefere beijar com a chave.
Não há necessidade de transformar a imagem numa equivalência simbólica.
O interesse, retrospectivamente, está em sua posição: aquilo que poderia ser pensado como instrumento de abertura encontra-se justamente no ponto de contato entre dois corpos.
Em que momento a procura da chave pode ocupar o lugar da própria experiência?
A série apresenta ainda portas fechadas, chaves inadequadas, chaves ausentes e situações em que, apesar da falta da chave correta, alguma solução improvisada continua possível.
Não emerge daí um símbolo estável. O que emerge é a progressiva desestabilização de uma expectativa: possuir uma chave não garante a existência de uma porta nem a obtenção de um sentido final.
6. O imperativo do encaixe
Outro sonho torna essa exigência quase geométrica.
Há duas peças: um círculo e um coração. A tarefa consiste em encaixar o coração no círculo “da forma mais perfeita possível”.
O sonhador se pergunta qual seria a tolerância admissível de erro. Afirma para si mesmo: “perfeição não existe”.
A resposta do sonho insiste:
O mais perfeito possível.
O impasse não se resolve.
A partir daí surgiu o primeiro dos operadores que seriam posteriormente isolados no Laboratório: tolerância ao incompleto.
Não se trata de legitimar imprecisão ou superficialidade. O problema aparece quando a exigência de rigor desliza para uma exigência diferente: a de que todas as peças finalmente coincidam, de que não reste nenhuma margem ou de que a interpretação correta consiga fechar o campo.
O sonho é interessante precisamente porque o sujeito já sabe que a perfeição não existe. Mesmo assim, a exigência retorna numa forma aparentemente moderada: não se pede perfeição, apenas “o mais perfeito possível”. O resto continua sendo tratado como erro a reduzir.
A elaboração clínica, entretanto, pode exigir outra posição: reconhecer que alguns restos não indicam necessariamente que o trabalho esteja incompleto; podem constituir justamente aquilo que impede sua transformação numa totalidade imaginária.
7. A palavra-chave que não funciona
Em outro sonho, três tiras de papel contendo palavras devem ser combinadas em forma triangular. O arranjo correto revelaria o “desafio subjetivo mais profundo” do sonhador.
Depois de diversas tentativas surge finalmente uma palavra. Mas ela é rejeitada.
A palavra não produz qualquer ressonância e é recusada como portadora de uma suposta verdade profunda. A frase que aparece no próprio sonho é especialmente precisa:
A palavra pode ser uma chave, mas do que adianta se não funciona?
Daí surgiu o segundo operador: ressonância subjetiva.
A expressão exige cautela. Ressonância não significa concordância, prazer nem certificação de verdade. Uma interpretação pode causar forte impacto e ainda assim estar equivocada. Outra pode provocar inicialmente estranhamento e somente muito depois adquirir importância.
O conceito aponta para uma exigência mais limitada: coerência semântica ou consistência teórica não bastam para garantir eficácia subjetiva.
Ressonância pode manifestar-se como afeto, reconhecimento, desconcerto produtivo, lembrança inesperada, deslocamento ou abertura de novas associações. Pode também não ocorrer.
Essa distinção tornou-se particularmente relevante com a entrada da inteligência artificial no dispositivo investigativo. Sistemas capazes de percorrer grande quantidade de textos produzem rapidamente relações contextuais plausíveis entre elementos separados por anos. Mas a capacidade de produzir relações não equivale à produção de simbolização pelo sujeito.
O sonho formula o problema com extrema economia: uma palavra pode ter todas as características formais de uma chave e, ainda assim, não abrir nada.
8. Quando a associação satura
O sonho seguinte radicaliza o problema.
O sonhador está diante de uma enorme planilha contendo letras, números e símbolos organizados em linhas e colunas. Aparentemente, se conseguir encontrar as associações corretas entre aqueles elementos, chegará a algum resultado.
Ocorre, porém, o contrário.
A quantidade de possibilidades parece chegar aos milhares. A planilha provoca saturação, demanda, vertigem e mal-estar. Surge inclusive a ideia de que alguém que se entregasse completamente àquele emaranhado poderia enlouquecer.
A resposta do sonhador é:
Decidi acordar para me livrar do incômodo.
Esse sonho modificou decisivamente o curso do Laboratório.
A associação livre permanece um dos fundamentos técnicos da psicanálise. Nada disso, entretanto, obriga a transformar quantidade de associações em medida de elaboração.
Há associações que deslocam posições, ligam experiências antes isoladas ou fazem surgir aquilo que não podia ser formulado. Mas existe a possibilidade de uma produção significante em que cada elemento apenas convoca outro, multiplicando conexões sem produzir alteração proporcional no campo subjetivo.
Foi para nomear esse fenômeno, inicialmente observado no próprio dispositivo investigativo, que surgiu a expressão provisória saturação associativa.
Não se afirma que toda produção abundante de associações seja defesa, gozo, compulsão ou qualquer outra categoria previamente determinada. O operador pretende ser descritivo antes de ser explicativo:
Há saturação quando o aumento das conexões deixa de ampliar proporcionalmente a elaboração e passa predominantemente a aumentar o emaranhamento do campo.
Essa formulação encontra um interlocutor particularmente relevante numa leitura contemporânea do umbigo freudiano. Pinto e Rivera observam que a condensação produz redes multidirecionais de pensamentos e que o limite da interpretação pode surgir não por escassez, mas pela própria multiplicidade de caminhos possíveis. O umbigo seria, nessa leitura, um ponto tão densamente condensado que o emaranhamento impõe uma interrupção à interpretação (PINTO; RIVERA, 2016).
A proximidade com o problema encontrado no Laboratório é evidente, mas a consequência clínica ainda precisa ser construída.
9. “Podemos ir mais, mas vale a pena?”
Outro sonho apresenta um pequeno grupo trabalhando na descoberta e aperfeiçoamento de quatro sequências alfanuméricas.
As sequências possuem grande capacidade explicativa e já se encontram numa fase considerada ótima. Entretanto, cada componente adicional aumenta exponencialmente o esforço exigido. Se o processo prosseguisse indefinidamente, seu limite seria o “caos absoluto”.
O grupo decide interromper.
O sonhador participa da decisão e formula uma pergunta:
Podemos ir mais, mas vale a pena?
Esta frase introduz uma diferença importante. O problema não é mais saber se é possível continuar.
É quase sempre possível acrescentar outra associação, outra lembrança, outra hipótese, outra relação textual. Em um corpus suficientemente extenso — e ainda mais quando auxiliado por tecnologias capazes de buscar grandes volumes de dados — o número potencial de relações tende a crescer rapidamente.
A pergunta torna-se econômica e clínica:
O que a continuação ainda produz?
A possibilidade de uma nova interpretação não constitui por si só indicação para prosseguir interpretando. É desse ponto que suspensão e corte começam a adquirir estatuto próprio.
10. Suspensão do excesso de associação
No sonho da planilha, o sonhador acorda. No sonho das sequências alfanuméricas, participa da decisão de parar. No sonho muito anterior da Ankh, ocorre outra coisa: o sonhador é retirado da catástrofe e colocado por terceiros em sono criogênico.
Não se trata da mesma operação.
No primeiro caso, existe uma saída do sonho. No segundo, uma decisão compartilhada de não continuar uma tarefa. No terceiro, há preservação através de uma suspensão imposta de fora da consciência do sonhador.
Essa heterogeneidade deve ser preservada. Seria empobrecedor tratar as três cenas como representações do mesmo símbolo.
Mas elas permitiram posteriormente formular um operador comum:
Suspensão do excesso associativo.
Suspender, nesse sentido, não equivale a abandonar a elaboração. Pode constituir a interrupção temporária de uma produção significante cuja continuação já não está produzindo deslocamento suficiente para justificar seu custo.
É importante distinguir aqui suspensão e corte.
A suspensão preserva a possibilidade de retomada. Ela não decide necessariamente o destino de uma sequência; reduz ou interrompe temporariamente sua pressão.
O corte introduz uma descontinuidade. Ele pode encerrar uma sequência, modificar o enquadre da pergunta ou impedir que um circuito continue indefinidamente reproduzindo sua própria exigência.
Em ambos os casos, não se pode pressupor de antemão que interromper seja resistência.
Em certas situações, interromper pode ser condição para que algo continue.
11. Do umbigo do sonho ao umbigo da análise
O conceito freudiano de umbigo do sonho oferece a este percurso uma referência fundamental.
Freud não afirma apenas que alguns sonhos ainda não foram suficientemente interpretados. Ele indica uma impossibilidade mais radical: mesmo no sonho cuidadosamente trabalhado permanece uma região em que os pensamentos se entrelaçam de forma que não podem ser completamente desembaraçados, enquanto a rede associativa continua a ramificar-se.
A formulação é particularmente importante porque impede duas conclusões opostas.
A primeira seria imaginar que o limite resulta simplesmente de falta de associações. A segunda seria supor que mais associações necessariamente dissolveriam o limite.
Pinto e Rivera chamam atenção justamente para esse paradoxo: o limite pode ser produzido pela própria potência ilimitada da rede associativa. Uma nova via permanece sempre possível, razão pela qual a interpretação não consegue constituir totalidade final (PINTO; RIVERA, 2016).
O Laboratório dos Sonhos permite formular, a partir daí, uma hipótese adicional.
Talvez seja possível falar não apenas de um umbigo do sonho, mas também de um umbigo da própria análise.
A expressão não pretende introduzir novo conceito metapsicológico equivalente ao freudiano. Designa uma hipótese clínica: existem momentos em que novas associações continuam sendo possíveis, mas sua multiplicação deixa de produzir transformação proporcional e começa a circundar reiteradamente um ponto que permanece irredutível.
Nesses momentos, continuar cavando pode não aprofundar. Pode apenas aumentar a escavação.
O problema clínico torna-se então reconhecer a diferença entre um campo que ainda está se abrindo e um campo que está apenas se multiplicando.
12. Sustentação e sinthoma: uma aproximação, não uma equivalência
A elaboração do sonho da Ankh tornou inevitável uma aproximação com o ensino tardio de Lacan, particularmente com o Seminário 23. Essa aproximação exige prudência.
No trabalho de Lacan sobre Joyce, o sinthoma aparece relacionado à possibilidade de reparar uma falha de amarração, permitindo que Real, Simbólico e Imaginário continuem de algum modo sustentados. O interesse de Lacan desloca-se progressivamente da decifração do sintoma para aquilo que, em determinadas soluções singulares, produz consistência (LACAN, 1975-1976/2007).
Não decorre disso que o sono criogênico do sonho seja um sinthoma. Também não se pretende transformar toda suspensão, limite ou recurso de enfrentamento em função sinthomática.
A aproximação situa-se num nível mais restrito.
O sonho da Ankh permitiu formular uma distinção entre algo que explica e algo que sustenta. A Ankh não fornece uma teoria da catástrofe. Ela não resolve o Real pela produção de sentido. Sua posse permite que o sonhador seja reconhecido, retirado e preservado.
Aquilo que sustenta não precisa ser aquilo que explica.
Nesse ponto, a elaboração pode ser aproximada da lógica sinthomática: certas soluções singulares podem produzir consistência sem transformar integralmente em saber aquilo diante do qual operam.
A função de sustentação não será, portanto, apresentada neste trabalho como sexto operador clínico autônomo. Ela constitui antes um horizonte teórico no qual suspensão e corte podem, em determinadas circunstâncias, adquirir valor que não é simplesmente defensivo ou negativo.
13. Cinco operadores
O percurso permitiu isolar cinco operadores. Eles não constituem técnica padronizada nem sequência obrigatória. São nomes provisórios dados a diferenças que se tornaram necessárias durante o trabalho.
Tolerância ao incompleto
Surge diante da exigência de encaixe perfeito. Indica a possibilidade de reconhecer que a presença de um resto não significa automaticamente insuficiência da elaboração.
Ressonância subjetiva
Aparece quando a palavra que deveria funcionar como chave é recusada. Não certifica a verdade de uma interpretação, mas impede que coerência formal seja confundida com eficácia subjetiva.
Detecção da saturação
Nomeia o momento em que novas associações aumentam predominantemente o emaranhamento, sem produzir deslocamento correspondente.
Suspensão do excesso associativo
Interrompe provisoriamente essa proliferação e preserva a possibilidade de retomada.
Corte
Introduz uma descontinuidade mais radical: encerra determinada sequência ou modifica sua lógica quando continuar deixa de produzir trabalho proporcional.
A relação entre esses operadores não é linear. Não é necessário atravessar os cinco. Não se deve buscar saturação para então produzir corte. Tampouco uma ausência momentânea de associações autoriza concluir que o campo esteja saturado.
Cada operador só pode ser pensado em relação à singularidade do processo em que emerge. Por isso, eles devem permanecer operadores de leitura e manejo, e não se converter em categorias diagnósticas.
14. Limites da proposição
Este trabalho possui limites claros.
Seu corpus pertence a uma única série onírica e envolve uma condição metodológica singular: o mesmo sujeito ocupa, em tempos diferentes, as posições de sonhador, registrador e pesquisador. Não se pretende, portanto, generalizar os operadores encontrados para outros sujeitos nem propor um protocolo clínico derivado de uma experiência individual.
O caráter longitudinal tampouco oferece por si só garantia de fidelidade integral ao acontecimento onírico. O que se conserva é sempre um registro narrativo do sonho, submetido à memória, à escrita e às condições de sua produção.
A recuperação de um sonho a partir de fonte literária torna essa diferença particularmente visível: a versão publicada constitui documento relevante, mas não pode ser tratada como transcrição contemporânea ao sonho.
Outro limite decorre da própria história do acervo. Os registros apresentam concentrações e lacunas. Não é possível inferir diretamente que períodos com maior número de textos correspondam a períodos com maior produção de sonhos; podem refletir simplesmente maior investimento no ato de registrá-los.
Finalmente, os operadores aqui apresentados surgiram retrospectivamente. Não estavam contidos nos sonhos como conceitos esperando ser descobertos. Eles resultaram da relação entre sonho, registro, associação, impasse metodológico e elaboração posterior.
Os sonhos não provam os operadores. Eles participaram de sua produção.
15. Conclusão: talvez não haja porta
O Laboratório dos Sonhos começou a partir de uma confiança na fecundidade da investigação. Essa confiança permanece. O que se modificou foi a relação entre investigação e completude.
Ao longo do percurso, diferentes sonhos introduziram obstáculos a uma lógica recorrente. O coração deveria encaixar-se no círculo da forma mais perfeita possível. Uma palavra deveria revelar o desafio subjetivo mais profundo. Uma planilha prometia um resultado através da combinação correta de milhares de elementos. Sequências explicativas poderiam ser continuamente aperfeiçoadas, embora o custo de cada acréscimo crescesse exponencialmente.
Em todos esses casos, o problema não era a inexistência de significantes. Havia significantes demais ou uma exigência excessiva depositada sobre eles.
Nesse ponto, o retorno ao umbigo freudiano revelou-se particularmente fecundo. O limite da interpretação não aparece apenas porque o sonho esconde algo ainda não encontrado. Pode surgir também porque sua rede de pensamentos se ramifica em direções que impedem qualquer fechamento definitivo.
A contribuição específica do Laboratório encontra-se um passo adiante: se a interpretação possui estruturalmente esse caráter inacabável, a clínica precisa também poder reconhecer quando sua continuação efetiva ainda produz elaboração e quando passa apenas a reproduzir sua própria exigência.
Daí os cinco operadores formulados neste percurso: tolerar o incompleto, considerar a ressonância subjetiva, reconhecer a saturação, suspender o excesso e produzir um corte quando necessário.
Eles não autorizam menos interpretação. Exigem uma relação mais rigorosa com aquilo que a interpretação efetivamente produz.
É nesse ponto que o sonho da Ankh retorna.
Diante da devastação completa, o sonhador possui uma chave. Mas talvez a ficção tenha sido imaginar que toda chave exige uma porta.
A Ankh não revela a causa da catástrofe. Não resolve seu enigma. É reconhecida como signo da vida e permite o resgate. Depois, a própria vida é preservada por uma suspensão.
A imagem não deve ser transformada numa teoria. Sua força está justamente em ter produzido, muitos anos depois, uma associação suficientemente simples para modificar toda a organização anterior da questão:
A vida foi a chave diante do caos total.
Talvez uma clínica da interpretação precise conservar algo dessa diferença.
Há momentos em que abrir novas associações mantém vivo o trabalho. Há outros em que sua multiplicação ameaça transformá-lo numa obrigação de compreender tudo.
Nesses momentos, redução, suspensão e corte não significam necessariamente desistência da elaboração. Podem proteger aquilo que a tornou possível.
O desejo de saber permanece.
O que talvez possa ser abandonado é a exigência de que exista, em algum lugar, uma porta final.
Referências
- ANZIEU, Didier. Freud's Self-analysis. London: Hogarth Press; Institute of Psycho-Analysis, 1986.
- FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. Obras completas, v. 4.
- LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
- PINTO, Tainá; RIVERA, Tania. Condensation, trauma and perceptive density of language — Freud with Jorge Luis Borges. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 19, n. 2, p. 311-324, 2016. DOI: 10.1590/S1516-14982016002011.
- SCHREDL, Michael. Dreaming about dreaming: analysis of a long dream series. International Journal of Dream Research, v. 8, n. 2, p. 142-145, 2015.
- SCHREDL, Michael. Analyzing a Long Dream Series: What Can We Learn About How Dreaming Works? Abingdon/New York: Routledge, 2024.
Nota editorial. Este artigo inaugura a linha de investigação Laboratório dos Sonhos no campo “Poesia, sonho e inconsciente” dos Cadernos de Pesquisa em Psicanálise.