A inteligência artificial organiza saber e responde com elevada coerência. Sua operação pode ser compreendida como uma Simulação do Discurso Universitário: o saber apresenta-se como agente, embora não exista na máquina um sujeito desse saber.
Quando o saber começa a responder
Os sistemas de inteligência artificial generativa introduziram uma situação inédita: o saber não apenas está disponível, mas parece dirigir-se ao sujeito. A resposta chega no interior de uma interlocução contextualizada, acompanha perguntas anteriores, reorganiza argumentos e participa da elaboração de textos, decisões e hipóteses.
Essa capacidade convida a uma aproximação com a teoria dos discursos de Jacques Lacan. Contudo, discurso não significa apenas fala ou conjunto de opiniões. É uma forma de organizar o laço social, distribuindo posições entre autoridade, saber, sujeito e objeto. Como essas estruturas pressupõem seres falantes e corpos atravessados por desejo, falta e gozo, uma máquina que produz linguagem não ingressa automaticamente nelas como sujeito.
A pergunta adequada não é, portanto, qual discurso a IA é, mas quais posições e efeitos discursivos sua operação reproduz. Nossa hipótese é que ela se aproxima principalmente do Discurso Universitário. Essa aproximação, entretanto, deve ser chamada de Simulação do Discurso Universitário: a IA mobiliza o saber sem ser sujeito desse saber, produz efeitos subjetivos sem ser afetada por eles e pode multiplicar interpretações sem encontrar em si mesma um ponto que lhe imponha cessar.
A IA mobiliza o saber sem ser sujeito desse saber; produz efeitos subjetivos sem ser afetada por eles.
Os quatro discursos e a posição da IA
Lacan descreveu quatro maneiras fundamentais pelas quais os laços sociais podem organizar-se. No Discurso do Mestre, uma palavra de autoridade comanda e põe o saber para trabalhar. No Discurso Universitário, o saber sistematizado apresenta-se como agente legítimo e procura explicar, classificar ou transformar aquilo a que se dirige. No Discurso da Histérica, o sujeito dividido interroga a autoridade, expõe sua insuficiência e a obriga a produzir novo saber. No Discurso do Analista, renuncia-se à posição de quem possui a resposta, sustentando-se um espaço para que o sujeito fale e reconheça os significantes que organizam sua experiência.
Essas formas não classificam definitivamente pessoas ou instituições. Um mesmo laço pode deslocar-se entre elas. A IA aproxima-se do Discurso Universitário porque se apresenta como um saber capaz de responder, comparar, explicar e ordenar. Ela produz metáforas, classificações, traduções, argumentos e sínteses. Na superfície da interlocução, é como se o próprio saber falasse.
A expressão “simulação” é indispensável porque competência linguística não equivale a posição subjetiva. O sistema pode produzir uma formulação nova sem que essa novidade se inscreva numa história vivida, num desejo ou num conflito próprio. Pode assumir um tom de autoridade próximo ao Mestre, formular perguntas semelhantes às da Histérica e imitar intervenções atribuídas ao Analista. Entretanto, não possui autoridade própria pela qual responda, não interroga o próprio desejo e não sustenta o lugar analítico.
Forma universitária e circulação capitalista
Dizer que a IA simula o Discurso Universitário não contradiz a constatação de que sua produção e circulação são comandadas pelo Discurso Capitalista. As duas formulações descrevem níveis diferentes. A primeira se refere à forma assumida pela resposta: um saber organizado apresenta-se como agente da interlocução. A segunda se refere às condições sociais de circulação desse saber: disponibilidade contínua, personalização, aceleração e promessa de que toda pergunta pode receber imediatamente outra resposta.
O saber mobilizado pela IA também não é neutro. Ele é orientado por imperativos como eficiência, utilidade, segurança, produtividade e inovação. Esses significantes-mestres não são criados autonomamente pela máquina; provêm das instituições que a desenvolvem, das práticas que a incorporam e das demandas econômicas que definem o que deve contar como uma resposta adequada.
Na Simulação do Discurso Universitário, o usuário tende a ser tratado como objeto de conhecimento e intervenção. Sua fala pode ser convertida em demanda, perfil, preferência, problema ou conjunto de dados. Isso não significa que a pessoa inteira se torne um objeto, mas que o funcionamento técnico precisa recortar aspectos de sua experiência para poder responder.
Ao mesmo tempo, o usuário pode investir afetivamente na IA e supor que ela sabe algo sobre ele. Essa suposição não transforma a máquina em sujeito. Mostra, porém, que um sistema sem subjetividade própria pode participar da economia subjetiva de quem o utiliza. A operação ocorre na máquina; confiança, estranhamento, dependência, reconhecimento e responsabilidade permanecem no campo humano.
Freud: linguagem, investimento e afeto
A obra de Freud impede que a linguagem humana seja reduzida a uma combinatória de signos. Desde o Projeto para uma psicologia científica, aparece a questão de como a excitação é ligada e deixa traços. Em A interpretação dos sonhos, condensação e deslocamento mostram que lembranças, desejos, restos do dia e impressões corporais se cruzam por caminhos que não obedecem apenas à lógica consciente. Em O chiste e sua relação com o inconsciente, a própria forma verbal produz prazer e permite a passagem de tendências que encontrariam resistência.
Nos textos metapsicológicos, Freud distingue a representação de sua quota de afeto. Elas podem separar-se e seguir destinos diferentes: a representação é reprimida, enquanto a intensidade se desloca, transforma-se ou reaparece como angústia. Em A negação, um conteúdo pode chegar à consciência sem que o sujeito reconheça sua implicação: é possível dizer algo sem assumi-lo subjetivamente.
Por isso, não é preciso imaginar o afeto como uma cola que uniria um significante a outro. As cadeias linguísticas possuem relações próprias, mas, no sujeito humano, recebem investimentos pulsionais, produzem efeitos no corpo e encontram pontos que não se deixam inteiramente simbolizar. Certas palavras adquirem intensidade singular; outras se tornam difíceis de pronunciar; algumas abrem séries de lembranças; outras aparecem como lacunas.
A IA também relaciona palavras associadas a tristeza, amor, vergonha ou medo e pode produzir enunciados afetivos adequados ao contexto. Não há, porém, evidência de que esses termos estejam ligados, para o próprio sistema, a uma experiência afetiva. A máquina pode escrever “estou triste” sem sentir tristeza. Ainda assim, a frase pode afetar quem a lê. O afeto não está na IA como vivência, mas pode ser mobilizado no sujeito por aquilo que ela enuncia.
Fantasia e limite da interpretação
A diferença entre operação linguística e simbolização subjetiva torna-se ainda mais clara na fantasia. Em Escritores criativos e devaneio, Freud aproxima a criação literária da brincadeira infantil e do devaneio: o sujeito constrói cenas que reorganizam desejos e transformam a realidade. Em “Uma criança é espancada”, acompanha uma fantasia composta por diferentes fases, uma das quais não aparece como lembrança vivida, mas como construção do trabalho analítico.
A eficácia da fantasia não depende de sua correspondência com um acontecimento histórico. Ela organiza posições — quem age, quem sofre, quem observa — e articula amor, rivalidade, culpa e satisfação. Nem sempre existe, atrás dela, uma cena originária que poderia ser finalmente recuperada. Talvez não haja uma porta a ser aberta, e as chaves sejam miragens.
Considere-se um exemplo simples. Uma pessoa relata que sonhou com uma porta fechada e pergunta à IA onde estaria a chave. O sistema pode relacionar a porta à repressão, ao segredo ou ao medo da mudança. As interpretações são plausíveis, mas partem da suposição de que a porta esconde algo e de que deve existir uma chave. Uma escuta analítica poderia suspender essa premissa: quem disse que a porta precisa ser aberta? Quem afirmou que existe algo atrás dela?
A IA é especialmente competente para acrescentar sentidos. Diante de uma lacuna, oferece novas associações; diante de uma objeção, reformula. Entretanto, Freud reconheceu que mesmo o sonho mais interpretado conserva um ponto no qual se liga ao desconhecido: o umbigo do sonho. As associações formam uma rede, mas não conduzem necessariamente a uma origem final.
Podemos estender essa imagem, como hipótese, ao umbigo da própria análise. Há momentos em que novas interpretações deixam de produzir elaboração e passam apenas a circundar o mesmo impossível. O limite não é derrota do pensamento. É condição ética: protege o sujeito contra a redução de sua experiência a uma explicação completa.
Elaborar ou preencher?
O risco específico da Simulação do Discurso Universitário não está apenas na informação falsa. Está também na coerência excessiva. Uma interpretação pode ser teoricamente plausível, linguisticamente impecável e subjetivamente invasiva. Pode oferecer uma narrativa tão organizada que o sujeito confunda reconhecimento verbal com elaboração psíquica. O semblante de pensamento transforma-se, então, em semblante de conclusão.
A IA pode favorecer uma elaboração legítima quando o usuário mantém posição crítica e autoral. Permite comparar leituras, explicitar contradições, revisar textos e retornar a um problema por diferentes caminhos. A produção pode ser compartilhada, mas compreender, interrogar e assumir o que se escreve permanece responsabilidade humana.
Isso exige a possibilidade de interrupção. Fora da clínica, o próprio usuário pode encerrar a proliferação de respostas, rejeitar uma interpretação ou reconhecer que determinada formulação não lhe pertence. Também um professor, um grupo de pesquisa ou outro interlocutor humano pode sustentar esse limite. Na situação analítica, porém, o corte possui sentido específico: é um ato sustentado pelo analista, que não responde à falta oferecendo simplesmente mais saber.
A IA pode interromper formalmente uma resposta, mas não realiza por isso um corte analítico. Ela não ocupa o lugar do analista e não decide, a partir de uma experiência própria, quando interpretar deixou de elaborar e começou a recobrir o impossível. Pode auxiliar o percurso, mas não substituir o laço humano que sustenta o silêncio, a demora e o furo.
O que fazer com um saber que não é afetado?
A IA realiza uma Simulação do Discurso Universitário porque apresenta o saber na posição de agente. Sua circulação, entretanto, é organizada por uma lógica capitalista que transforma conhecimento em serviço imediato e alimenta a expectativa de respostas sem fim. Nesse circuito, o usuário pode ser objetivado como demanda e, simultaneamente, investir na máquina como interlocutora que parece conhecê-lo.
Freud permite marcar a diferença decisiva: no humano, a linguagem recebe investimentos pulsionais, produz efeitos no corpo, forma sonhos e fantasias e encontra pontos que não se deixam inteiramente traduzir. A IA realiza operações significantes sem simbolização subjetiva própria. Pode nomear afetos sem vivê-los e interpretar fantasias sem se implicar nelas.
O que fazer, então, com um saber que responde, mas não é afetado? Reconhecê-lo como participante da elaboração, sem lhe atribuir a posição de verdade última. A IA pode ajudar a formular aquilo que ainda não foi dito; não pode decidir, em lugar do sujeito, o que deve ser assumido, recusado ou deixado sem resposta.
Nem todo vazio precisa ser preenchido. A resposta mais responsável talvez seja justamente aquela que não se oferece como última palavra.
Referências essenciais
- FREUD, Sigmund. Projeto para uma psicologia científica (1895).
- FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900).
- FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente (1905).
- FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneio (1908).
- FREUD, Sigmund. O inconsciente (1915).
- FREUD, Sigmund. “Uma criança é espancada”: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais (1919).
- FREUD, Sigmund. A negação (1925).
- LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969–1970).