Resumo
Este artigo propõe ampliar a compreensão psicanalítica do inconsciente: sem abandonar sua dimensão de conservação, recalque e repetição, investiga sua capacidade de transformar materiais da experiência e produzir configurações novas. A partir do trabalho do sonho, discute-se o conteúdo manifesto não apenas como superfície a ser decifrada, mas como forma criada. Introduz-se, então, a noção provisória de congruência para designar o reconhecimento afetivo e estético de uma forma que não estava determinada de antemão — a experiência expressa em “pronto, é deste jeito”. Essa hipótese é articulada às distinções entre criação, sublimação, suplência e sinthoma e conduz a uma consequência clínica: o desvelamento das determinações inconscientes pode abrir caminho para a invenção de soluções singulares. Nessa perspectiva, o analisante é autor dessas soluções, enquanto cabe ao analista sustentar as condições para que elaboração, experimentação e apropriação subjetiva possam ocorrer.
Palavras-chave: inconsciente criativo; trabalho do sonho; conteúdo manifesto; congruência; criação; clínica psicanalítica.
A psicanálise nasceu sob o signo do desvelamento. Desde Freud, sonhos, sintomas, lapsos e atos falhos são compreendidos como formações que permitem alcançar conexões inconscientes ocultas à consciência. A associação livre e a interpretação tornaram-se, por isso, instrumentos privilegiados para reconstruir determinações recalcadas, fantasias e conflitos que organizam a vida subjetiva.
Esse paradigma permanece fundamental. Entretanto, parte importante da psicanálise contemporânea permite formular uma questão adicional: o inconsciente apenas conserva, recalca e repete ou também produz novas formas?
A pergunta modifica significativamente a compreensão da criatividade, do sonho e da própria finalidade da clínica.
O inconsciente não apenas revela: ele trabalha
O próprio Freud oferece o primeiro fundamento para essa questão. O sonho manifesto não corresponde à simples reprodução de pensamentos inconscientes previamente organizados. Condensação, deslocamento, figurabilidade e elaboração secundária submetem os materiais psíquicos a um intenso trabalho de transformação.
Restos diurnos, lembranças remotas, afetos, desejos, sensações corporais e significantes podem reunir-se numa configuração que jamais existiu anteriormente daquela maneira.
Assim, ainda que seus elementos tenham uma história anterior, a forma produzida pelo sonho é nova.
Isso permite distinguir duas operações.
Na primeira, determinada conexão já existe e encontra-se recalcada. O trabalho analítico permite seu desvelamento.
Na segunda, elementos anteriormente dispersos são articulados de maneira inédita, produzindo uma configuração que não estava pronta à espera de ser descoberta.
Nesse segundo caso, houve algo além de revelação.
Houve criação.
O inconsciente criativo
Autores contemporâneos, especialmente Christopher Bollas, desenvolveram essa dimensão produtiva do inconsciente. Seu conceito de inconsciente criativo desloca a imagem do inconsciente como simples depósito do recalcado.
Experiências aparentemente dispersas podem ser recebidas, combinadas e transformadas inconscientemente até produzirem novas organizações psíquicas. Uma lembrança, uma frase ouvida ao acaso, uma leitura, um sonho, uma imagem e determinada experiência afetiva podem permanecer durante algum tempo sem relação consciente entre si. Mais tarde, surge uma configuração nova.
Não se trata apenas de:
“agora percebi uma conexão que estava escondida.”
Pode ocorrer algo diferente:
“nunca havia pensado ou experimentado isso dessa maneira.”
O inconsciente aparece então não apenas como lugar de conservação e repetição, mas como campo de transformação e produção de formas.
Isso não implica imaginar uma espécie de artista oculto dentro do aparelho psíquico. A criação inconsciente não ocorre ex nihilo. Ela trabalha com materiais existentes, mas é capaz de produzir com eles combinações inéditas.
Criar não é simplesmente produzir
Essa distinção também exige cuidado com o próprio conceito de criatividade.
Escrever, pintar, pesquisar, compor, cozinhar ou sonhar não são necessariamente atos criativos. Todas essas atividades podem limitar-se à repetição, à técnica, à imitação ou à reprodução de formas já disponíveis.
René Roussillon contribui para essa diferenciação ao distinguir desejo, necessidade, compulsão e capacidade de criar, relacionando o processo criativo à simbolização e à apropriação subjetiva.
Podemos então propor uma definição provisória:
Há criação quando uma operação produz para o sujeito uma configuração que não estava anteriormente disponível naquela forma.
A novidade aqui não precisa ser histórica.
Uma solução pode já ter sido encontrada por inúmeros outros sujeitos e ainda representar um verdadeiro acontecimento criativo na história daquele indivíduo.
Para a clínica, portanto, interessa sobretudo a novidade subjetiva.
O conteúdo manifesto do sonho como forma criada
Essa perspectiva permite reconsiderar o estatuto do conteúdo manifesto do sonho.
Frequentemente ele foi tratado como uma espécie de superfície que precisaria ser atravessada para alcançar os pensamentos latentes. A direção clássica seria:
conteúdo manifesto → associações → determinações inconscientes.
Nada disso precisa ser abandonado.
Mas uma segunda direção pode ser acrescentada:
O que o trabalho do sonho realizou ao produzir justamente aquela forma?
Alguns sonhos apresentam uma arquitetura particularmente complexa. Constroem lugares inexistentes, objetos impossíveis, personagens compostos, acontecimentos, conflitos, deslocamentos e desfechos. Podem formar pequenas narrativas ficcionais dotadas de uma lógica interna própria.
A cena manifesta não estava necessariamente armazenada de forma completa no inconsciente antes do sonho.
Ela foi montada.
Seus elementos possuem determinações anteriores, mas a configuração resultante constitui uma produção nova.
Por isso, o conteúdo manifesto pode ser pensado como forma criada pelo trabalho do sonho.
Essa hipótese não elimina a investigação dos pensamentos latentes. Ao contrário, acrescenta outra dimensão à interpretação:
De onde vieram os elementos dessa formação? Por que adquiriram justamente essa configuração? O que essa forma tornou possível para o sujeito?
A congruência: “pronto, é deste jeito”
É nesse ponto que surge um conceito que merece investigação própria: congruência.
Em determinados processos criativos ocorre uma experiência peculiar. O sujeito produz uma forma sem conhecer inteiramente, de antemão, qual deveria ser seu resultado final. Durante o processo há tentativas, deslocamentos, dúvidas e rearranjos.
Em determinado momento ocorre um reconhecimento:
“Pronto, é deste jeito.”
Essa experiência não equivale simplesmente a correção.
Também não significa que o resultado corresponda a um modelo previamente concebido, como na expressão popular: “ficou exatamente como eu imaginava”.
Na experiência de congruência, a forma pode não ter sido antecipada.
Ela é reconhecida depois de emergir.
O “pronto” contém algo importante: indica que uma busca encontrou momentaneamente um ponto de fechamento.
E “é deste jeito” não significa:
“esta é a verdade objetiva”.
Significa algo mais próximo de:
“esta forma se sustenta para aquilo que estava em jogo.”
Chamamos provisoriamente de congruência, portanto:
a experiência pela qual uma forma emergente, não inteiramente determinada de antemão, passa a ser reconhecida pelo sujeito como a configuração que se sustenta para sua experiência: “pronto, é deste jeito”.
Congruência e experiência estética
A congruência possui uma dimensão estética.
Não necessariamente porque a forma seja bela segundo critérios culturais, mas porque seu reconhecimento é também sensível, afetivo e corporal.
Pode haver satisfação diante de uma frase encontrada, de uma interpretação, de uma imagem, de uma combinação musical, de uma solução prática ou da arquitetura de determinado sonho.
Essa satisfação não deriva apenas de “ter resolvido um problema”.
Há uma espécie de fruição da forma encontrada.
Por isso, podemos falar, ainda provisoriamente, de um gozo estético singular da congruência.
O sujeito não apenas compreende.
Ele experimenta.
A diferença pode ser expressa entre duas formulações:
“agora compreendi”
e
“pronto, é deste jeito”.
A segunda contém uma dimensão de experiência que a primeira não necessariamente possui.
Sublimação, criação, suplência e sinthoma
É importante não confundir conceitos diferentes.
Freud desenvolveu a sublimação como um destino pulsional. Uma atividade criativa pode ser sublimatória, mas a sublimação não explica por si só como uma forma nova emerge.
Podemos distinguir:
Sublimação: que destino encontrou a pulsão?
Criação: como surgiu uma configuração que antes não estava disponível?
Suplência: que função de compensação ou sustentação essa configuração passa a exercer?
Sinthoma: como determinada solução singular pode tornar-se modo relativamente estável de amarração do sujeito e de tratamento do gozo?
Uma criação pode funcionar como suplência.
Pode eventualmente adquirir uma função sinthomática.
Mas nem toda criação é suplência, e muito menos todo ato criativo constitui um sinthoma.
A criação diz respeito principalmente à emergência da forma.
A suplência e o sinthoma dizem respeito à função que essa forma passa a exercer.
Da interpretação à criação de soluções
Essa distinção tem consequências clínicas importantes.
Uma análise não precisa ser concebida apenas como processo de descoberta das determinações inconscientes do sujeito.
O desvelamento permanece indispensável.
O sujeito precisa reconhecer repetições, identificações, fantasias, conflitos e significantes que o constituem.
Mas não pode simplesmente desfazer sua história.
Não escolheu a língua em que nasceu, seu corpo, suas primeiras relações, as expectativas do Outro ou muitos dos acontecimentos que o marcaram.
A questão clínica torna-se então:
O que ele poderá criar com aquilo que descobriu que o constitui?
Nessa perspectiva:
desvelamento → elaboração → criação → experimentação → apropriação subjetiva.
A análise deixa de terminar necessariamente na interpretação correta.
Ela pode criar condições para que surjam soluções que nem analisante nem analista conheciam previamente.
O protagonismo do analisante
Esse deslocamento modifica profundamente a posição clínica.
Uma prática excessivamente orientada pelo saber do analista pode conservar um resíduo positivista: supor que existe uma interpretação correta, uma forma mais adequada de funcionamento ou uma solução previamente reconhecível pela teoria.
Entretanto, o analisante pode produzir soluções profundamente singulares.
Algumas serão inesperadas.
Algumas poderão parecer pouco convencionais ao observador externo.
Seu valor clínico não depende prioritariamente de sua conformidade com um modelo ideal de normalidade, mas da função que conseguem exercer na organização subjetiva.
Uma invenção pode permitir ao sujeito circunscrever um excesso, estabelecer novos laços, reorganizar sua relação com o corpo, encontrar outra relação com o desejo ou produzir uma forma mais habitável de existência.
O analista não deve saber antecipadamente qual será essa solução.
Daí uma formulação clínica fundamental:
O analisante é protagonista e autor das soluções; o analista é responsável pelas condições do processo.
A interpretação continua necessária, mas seu valor não decorre apenas da correção teórica. Uma interpretação pode ser tecnicamente sofisticada e, ainda assim, fechar prematuramente um processo associativo.
Às vezes, a melhor intervenção é aquela que permite que o trabalho do analisante continue.
A transferência como campo de criação
Também a transferência pode ser reconsiderada.
Ela é certamente repetição.
O sujeito reinscreve no vínculo analítico posições, expectativas, fantasias e modalidades relacionais constituídas anteriormente.
Mas talvez a transferência não seja apenas repetição.
O endereçamento ao Outro cria condições específicas para que determinadas articulações sejam produzidas.
Ao falar, associar, sonhar, imaginar e dirigir sua fala ao analista, o sujeito não necessariamente apenas exterioriza conteúdos prontos.
Novas configurações podem emergir no próprio processo.
Assim:
transferência = repetição + possibilidade de transformação.
E, em determinadas condições:
transferência = campo possível de criação.
Essa compreensão permite também pensar processos psicanalíticos para além do setting clássico, desde que não se confundam transferência e análise.
Transferência pode ocorrer em inúmeros contextos.
Para que haja processo analítico é necessário um dispositivo que permita trabalhar essa transferência sem capturá-la, preserve o protagonismo do sujeito e favoreça associação, simbolização, elaboração e invenção.
Uma clínica das condições de criação
A psicanálise desenvolveu extraordinariamente sua compreensão da falta, do trauma, do conflito, do recalque, da repetição e do gozo.
Talvez tenha desenvolvido com menor clareza uma metapsicologia da emergência do novo.
Autores como Winnicott, Bion, Bollas, Roussillon e Ogden tornam essa lacuna cada vez mais visível.
O sujeito não é apenas determinado por sua história. Em determinadas condições, possui também a capacidade de transformar materiais dessa história e produzir configurações inéditas.
Isso não significa uma clínica otimista, adaptativa ou voltada para uma suposta realização plena.
A impossibilidade permanece.
O Real permanece.
A falta permanece.
Mas permanece também a possibilidade de invenção.
Uma clínica orientada por essa dimensão acrescentaria à pergunta tradicional:
“O que isto significa?”
uma segunda:
“O que este sujeito poderá criar com aquilo que agora consegue reconhecer?”
Uma hipótese para a teoria dos sonhos
O sonho talvez ofereça um modelo particularmente privilegiado dessa capacidade.
Freud chamou o sonho de via régia para o inconsciente. Essa via pode ser compreendida em duas direções.
Uma direção genealógica:
da forma manifesta para as determinações que participaram de sua produção.
E uma direção generativa:
da forma criada para possibilidades subjetivas que anteriormente não existiam daquela maneira.
O conteúdo manifesto deixaria, então, de ser apenas um enigma a ser desmontado.
Passaria também a ser investigado como uma solução formal produzida pelo trabalho inconsciente.
Sua arquitetura — a maneira como personagens, espaços, objetos, acontecimentos e desfechos são montados — torna-se um dado clínico em si mesmo.
Isso abre a possibilidade de investigar, inclusive em séries longitudinais de sonhos, transformações não apenas dos significantes e afetos recorrentes, mas da própria capacidade inconsciente de figurar, compor, narrar e produzir soluções.
Onde pode estar uma contribuição própria
Nenhum dos elementos anteriores deve ser reivindicado isoladamente como descoberta inédita.
Há ampla tradição sobre criatividade em psicanálise.
O caráter produtivo do inconsciente já foi desenvolvido por diversos autores.
A relação entre sonho e criatividade também possui literatura própria.
O interesse crescente pelo conteúdo manifesto tampouco é novo.
A contribuição que parece merecer investigação situa-se na articulação entre esses elementos:
o conteúdo manifesto como forma criada pelo trabalho do sonho; a arquitetura dessa forma como objeto metapsicológico; a congruência como experiência de reconhecimento — “pronto, é deste jeito”; e a passagem dessa lógica para uma clínica em que o analisante pode inventar soluções singulares capazes de produzir consistência subjetiva.
Nessa perspectiva, a análise não seria apenas uma clínica do desvelamento.
Seria também uma clínica das condições de criação.
O sujeito descobre aquilo que o determina, mas não termina aí.
Pode produzir alguma coisa com essas determinações que ainda não existia.
Talvez seja justamente nesse movimento que o analisante deixe de ser apenas alguém cuja história precisa ser interpretada e assuma plenamente o lugar de protagonista da própria elaboração subjetiva.
Referências
BION, Wilfred R. Learning from Experience. London: Heinemann, 1962.
BOLLAS, Christopher. The Shadow of the Object: Psychoanalysis of the Unthought Known. London: Free Association Books, 1987.
BOLLAS, Christopher. Forces of Destiny: Psychoanalysis and Human Idiom. London: Free Association Books, 1989.
FREUD, Sigmund. The Interpretation of Dreams. In: STRACHEY, James (ed.). The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. Vols. IV–V. London: Hogarth Press, 1953. Trabalho original publicado em 1900.
LACAN, Jacques. The Sinthome: The Seminar of Jacques Lacan, Book XXIII. Edited by Jacques-Alain Miller. Cambridge: Polity Press, 2016. Seminário proferido em 1975–1976.
OGDEN, Thomas H. This Art of Psychoanalysis: Dreaming Undreamt Dreams and Interrupted Cries. London: Routledge, 2005.
ROUSSILLON, René. Désir de créer, besoin de créer, contrainte à créer, capacité de créer. In: CHOUVIER, Bernard et al. Symbolisation et processus de création: sens de l’intime et travail de l’universel dans l’art et la psychanalyse. Paris: Dunod, 1998. p. 158–171.
WINNICOTT, Donald W. Playing and Reality. London: Tavistock Publications, 1971.
Nota editorial. Artigo publicado nos Cadernos de Pesquisa em Psicanálise, no campo “Poesia, sonho e inconsciente”.