A demência costuma ser descrita por aquilo que retira: memória, orientação, autonomia, reconhecimento e capacidade de organizar a própria narrativa. Essa descrição é indispensável, mas não esgota a experiência de quem vive o adoecimento.

Quando o sujeito já não consegue dizer com clareza quem é, reconhecer os familiares ou situar-se no tempo, torna-se necessário perguntar: a perda das funções cognitivas corresponde ao desaparecimento completo da subjetividade?

A hipótese desenvolvida em meu Trabalho de Conclusão de Curso é que não. Mesmo diante da falência progressiva da memória e da linguagem, o sujeito pode continuar a manifestar-se. Essa presença nem sempre assume a forma de um discurso coerente. Pode aparecer numa frase repetida, numa canção reconhecida, num gesto corporal, na procura insistente por um objeto, numa oração ou numa maneira particular de receber ou recusar o cuidado.

O trabalho apoiou-se numa revisão teórico-narrativa e também na observação do cotidiano de um residencial para idosos, acompanhando a fala e as manifestações dos próprios residentes, bem como a escuta de familiares e cuidadores. Esse convívio tornou especialmente visível que a demência não acontece apenas no cérebro individual: ela altera todo um campo de relações, reconhecimento e cuidado.

Delimitação ética

Reconhecer a subjetividade não significa negar a deterioração neurológica nem prometer sua reversão. Significa recusar que o diagnóstico transforme antecipadamente uma pessoa em organismo sem história, desejo ou capacidade de ser afetado.

Quando a narrativa de si se fragmenta

A memória autobiográfica participa da continuidade pela qual uma pessoa reconhece sua vida como história. Lembrar não é apenas armazenar acontecimentos: envolve selecionar, reorganizar e atribuir sentidos ao vivido. Quando a demência compromete essa capacidade, podem desaparecer referências que sustentavam uma posição na família e no mundo.

O presente deixa de oferecer segurança. A casa pode não parecer a própria casa; o filho pode ser confundido com um irmão; o cuidador pode ser percebido como estranho. O relógio desaparecido torna-se sinal de roubo. A experiência do tempo se embaralha e acontecimentos distantes retornam como se ocorressem agora.

A fala perde sua organização habitual: palavras faltam, frases se interrompem e certos enunciados retornam continuamente. Do ponto de vista cognitivo, esses fenômenos são sintomas da doença. A escuta psicanalítica acrescenta outra pergunta: sem negar a lesão neurológica, podemos reconhecer nessas manifestações alguma forma de resposta do sujeito ao que está vivendo?

Isso exige prudência. Nem toda repetição possui um significado oculto e nem todo comportamento deve ser interpretado. A doença produz alterações reais. Entretanto, reduzir toda manifestação à deterioração também impede que uma história singular seja reconhecida.

Como o sujeito se manifesta?

Quando a narrativa organizada já não pode ser sustentada, a subjetividade pode aparecer em manifestações descontínuas: nomes, melodias, gestos, rituais, objetos, orações, recusas e frases que retornam. Não são necessariamente vestígios passivos de uma identidade antiga. Podem constituir modos atuais de presença e de organização.

Uma pessoa que já não reconhece claramente os familiares pode tranquilizar-se ao ouvir uma voz conhecida. Alguém incapaz de narrar a própria história ainda canta uma música ligada à juventude. Outra pessoa repete que precisa “ir para casa”, mesmo estando em sua residência. Há quem conte objetos, dobre roupas, percorra o mesmo caminho ou recite uma oração inúmeras vezes.

A pergunta clínica não deve ser imediatamente “o que isso significa?”, mas que função essa manifestação exerce agora? Ela acalma ou aumenta a angústia? Restabelece alguma rotina? Reconstitui familiaridade? Convoca a presença de alguém? Protege contra um ambiente vivido como ameaçador?

“Quero ir para casa”, por exemplo, não precisa ser tratado apenas como erro de orientação. Casa pode não designar um endereço, mas uma experiência de proteção, pertencimento ou retorno a um tempo reconhecível. Corrigir insistentemente — “você já está em casa” — responde ao endereço quando o sujeito talvez expresse outra perda.

O sinthoma como amarração

No último ensino de Jacques Lacan, o sinthoma permite pensar uma forma singular de amarração que não se reduz a uma mensagem a ser decifrada. Em algumas situações, uma prática, uma repetição ou um modo particular de relação oferece consistência quando outras organizações psíquicas se fragilizam.

Transportar esse conceito para a demência exige cautela. Não se deve afirmar que qualquer comportamento repetitivo seja um sinthoma, nem converter toda manifestação neurológica em fenômeno psicanalítico. O conceito funciona como operador de leitura: certas repetições podem manter uma ligação mínima entre corpo, afeto, linguagem e presença do Outro.

A oração repetida oferece ritmo e continuidade. Contar objetos delimita um mundo que se tornou caótico. Uma música reinscreve o corpo numa temporalidade compartilhada. Um objeto carregado de história funciona como ponto de reconhecimento. Pequenos rituais preservam alguma previsibilidade diante da desorientação.

O manejo não consiste automaticamente em eliminar a repetição. Antes de interrompê-la, é preciso observar se causa risco ou sofrimento e se exerce alguma função de estabilização. O que parece sem sentido para quem cuida pode ser uma das últimas formas disponíveis de organização para aquela pessoa.

O laço como sustentação

Quando os recursos internos de simbolização diminuem, o laço pode exercer uma função crescente de sustentação. Familiares, cuidadores e profissionais passam a oferecer parte da continuidade que a pessoa já não consegue produzir sozinha.

Isso não significa falar permanentemente por ela ou decidir tudo em seu lugar. O excesso de antecipação também apaga o sujeito. Sustentar o laço implica reconhecer respostas mínimas: um olhar, uma recusa, uma alteração da expressão corporal, a aproximação diante de uma voz e o afastamento diante de determinada presença.

A identidade não depende exclusivamente da memória individual. Também é mantida pelo reconhecimento dos outros. Continuamos sendo chamados pelo nome, inseridos numa história e tratados como alguém cuja presença importa. Quando a pessoa já não consegue narrar quem foi, aqueles que convivem com ela podem preservar partes dessa continuidade sem aprisioná-la à identidade anterior.

O cuidado ético reconhece simultaneamente o que permanece e o que mudou. Exigir que alguém volte a ser exatamente quem era pode tornar-se outra forma de violência. Há perdas irreversíveis, mas também podem surgir formas diferentes de presença, afeto e vínculo.

Oito princípios de manejo

Não existe uma técnica psicanalítica única para todos os quadros de demência. O manejo deve considerar diagnóstico médico, estágio da doença, ambiente e singularidade. Alguns princípios, entretanto, podem orientar familiares, cuidadores e profissionais.

01

Escutar antes de corrigir

A correção factual constante raramente restaura a orientação e pode intensificar a angústia. Antes de responder ao erro, convém acolher o afeto que ele pode estar expressando.

02

Não exigir uma coerência já impossível

Perguntas sucessivas para testar a memória expõem repetidamente a pessoa ao fracasso. A conversa pode acompanhar fragmentos, aceitar pausas e abandonar a forma de prova cognitiva.

03

Reconhecer a enunciação corporal

Postura, olhar, respiração, agitação e recolhimento podem indicar medo, dor, recusa ou reconhecimento. Essa escuta não substitui a avaliação médica; pode justamente mostrar quando ela é necessária.

04

Preservar pontos de ancoragem

Músicas, fotografias, objetos, orações, horários e pequenos rituais podem oferecer continuidade. O critério é observar o que produz serenidade, reconhecimento e participação.

05

Evitar confrontos desnecessários

Diante de uma percepção incompatível com a realidade compartilhada, reconhecer o medo e oferecer segurança costuma ser mais cuidadoso do que impor um confronto que amplie a ameaça.

06

Sustentar pequenas escolhas

Mesmo quando a autonomia ampla se perdeu, escolhas entre duas roupas, músicas, atividades ou alimentos preservam alguma participação sem impor decisões que a pessoa já não consegue organizar.

07

Diferenciar subjetividade de risco clínico

Agitação súbita, alteração da consciência, recusa persistente de líquidos ou alimentos, quedas, dor e mudanças rápidas de comportamento exigem avaliação profissional.

08

Cuidar também de quem cuida

Exaustão, irritação, culpa e luto antecipatório atravessam familiares e profissionais. Sustentar o sujeito com demência requer também sustentar quem permanece ao seu lado.

Uma clínica que não abandona o sujeito

A contribuição da psicanálise não está em oferecer cura para a demência nem em competir com neurologia, geriatria, psiquiatria, enfermagem, terapia ocupacional e outras áreas. Está em preservar uma pergunta que um modelo exclusivamente centrado no déficit pode perder: como essa pessoa ainda se apresenta como sujeito?

A resposta pode não estar numa narrativa completa. Pode residir numa preferência, numa rejeição, numa frase insistente, numa melodia, num gesto ou numa transformação corporal diante da presença de alguém. Escutar esses sinais não significa atribuir-lhes arbitrariamente um sentido. Significa conceder-lhes valor antes de classificá-los como ruído.

A clínica da demência é, nesse aspecto, uma clínica do laço. Ela não procura restaurar integralmente a identidade anterior à doença, mas sustentar as condições pelas quais aquela pessoa ainda pode afetar e ser afetada, desejar e recusar, reconhecer e ser reconhecida.

Quando a memória já não assegura a continuidade da história, o outro pode ajudar a sustentar sua borda — não para falar definitivamente em nome do sujeito, mas para não o fazer desaparecer antes que tenha efetivamente desaparecido.

Referências essenciais

  • BARDY, João Balieiro. “Lelé da cuca, mas ela continua”: pessoa, identidade pessoal e interioridade frente à doença de Alzheimer. Ponto Urbe, n. 31, 2023.
  • CARVALHO DA SILVA, Victor Hugo. Mais além do déficit intelectual: uma perspectiva psicanalítica sobre a demência, a debilidade e a psicose. Tempo Psicanalítico, v. 52, n. 1, p. 90–110, 2020.
  • FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas, v. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
  • LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
  • QUADERI, André. A psicanálise sob o risco da demência. Psicanálise & Clínica, v. 20, n. 2, p. 185–198, 2008.
  • VANSTONE, Ashley D.; CUDDY, Lola L. Musical memory in Alzheimer’s disease: a review. Journal of Music Therapy, v. 47, n. 4, p. 307–329, 2010.

Nota de origem. Este artigo deriva do Trabalho de Conclusão de Curso Subjetivação na demência: uma leitura psicanalítica da dissolução do simbólico e articulação do sinthoma como suporte do desejo, apresentado ao Bacharelado em Psicanálise do Centro Universitário Internacional UNINTER, em 2025.